Sábado, 18 de Novembro de 2017
 
    
   
Suinicultura :: Entrevista com António Tavares
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Entrevista com António Tavares
2016-09-19

O sector suinícola europeu tem uma grande relevância e para conhecer em primeira mão a sua evolução, a Comissão Europeia consulta habitualmente o COPA-COGECA, a organização que a nível europeu junta os interesses das associações agropecuárias de cada país.
Para conhecer que momento vive o sector no conjunto da União Europeia o INTERPORC conversou com o presidente do Grupo de Trabalho da Carne de Porco do COPA-COGECA, o português António Tavares, quem é um grande conhecedor da realidade do sector suinícola tanto a nível continental, como a nível de Espanha.

Que trabalho desempenha o COPA-COGECA para apoiar o sector suinícola?
Principalmente, o que fazemos é escutar todos os problemas que nos são transmitidos pelas diferentes organizações nacionais que fazem parte do COPA-COGECA, os quais nos encarregamos de comunicar à Comissão Europeia e tentamos ajudar a resolvê-los. É um trabalho importante já que todas as iniciativas legislativas que são apresentadas pela Comissão são analisadas pelo COPA-COGECA e auscultada a nossa posição.

Este grupo de trabalho pressiona a Comissão no sentido que a legislação de temas como bem-estar animal, ambiente, etc, não afecte a actividade dos produtores. Por vezes não é fácil, já que temos de lutar contra os interesses de outras organizações, mas até agora a nossa posição tem sido muito importante para a evolução do sector.

Que momento atravessa a suinicultura na UE?
Neste momento, acabamos de passar a crise mais grave dos últimos 30 anos devido ao embardo russo e ao aumento da produção. Hoje em dia creio que se a alterar fortemente a estrutura produtiva a nível europeu, onde a suinicultura está cada vez mais concentrada nos países que têm dimensão suficiente e uma boa organização da fileira, com grandes matadouros, capacidade de exportação e um circuito integrado para simplificar e reduzir custos.
Esta crise levou a que países que contam com explorações pequenas, pouco modernizadas e uma má organização de fileira, com matadouros de escassa capacidade, reduzissem a sua produção, enquanto outros países, como é o caso de Espanha, aumentaram a sua produção.
Antonio TavaresFalamos sempre da Europa como um espaço social e equilibrado, mas as condições económicas foi o que levou a uma maior concentração em determinados países, enquanto provocou a diminuição da produção noutros.

No contexto da produção europeia, qual é o papel de Espanha?
Espanha possui hoje o modelo mais rentável de produção a nível europeu. Não é um modelo novo, uma vez que já estava a ser aplicado noutros países, como os EUA há várias décadas, e igual ao da Holanda, Dinamarca, etc. Baseia-se na especialização e profissionalização da produção ao máximo. Começa com os leitões e as engordas em diferentes explorações, consoante o seu fim. Desta maneira obtém-se uma maior especialização e uma produtividade maior quanto ao número de leitões. Para além disso, podem-se distribuir as engordas por zonas do país onde é possível utilizar o efluente como fertilizante dos campos agrícolas, passando este a constituir uma solução ao invés de um problema.
Espanha apostou num sistema produtivo e hoje em dia tem uma grande dimensão, com uma grande rentabilidade. E em comparação com outros países tem outras vantagens, como a vasta área onde pode ser aplicado o efluente. Isto é cada vez mais importante, visto que países como a Holanda ou a Dinamarca têm uma legislação muito restritiva nesta matéria e o tratamento de efluentes se está a converter em mais um custo avultado a somar à produção.

Este modelo que descreve levou a Espanha a ser um dos principais produtores de carne a nível europeu e mundial. Que lhe parece a evolução que se tem registado?
Pelo que disse anteriormente, o sistema espanhol revelou-se como o mais rentável de toda a Europa e isto permitiu ao produtores levar a cabo investimentos para aumentar a sua capacidade produtiva. Em poucos anos Espanha conseguiu superar países como a Alemanha. Em termos de abates ainda não superou, mas sim em produção, já que os matadouros alemães compram muitos animais vivos a outros países como Holanda ou Dinamarca.

As exportações espanholas também cresceram muito nos últimos anos. Converteu-se num modelo a seguir também neste aspecto?
Hoje em dia, a nível europeu, é fácil constatar que todos os matadouros necessitam de exportar a países terceiros para prosseguir com a sua actividade. Como Espanha tem grandes indústrias cárnicas e matadouros, apostou na exportação e tem uma produtividade e rentabilidade operativa superior à que têm países como Dinamarca ou França devido a questões como o baixo custo da mão-de-obra. Este facto permitiu a melhoria da competitividade das empresas e leva a que se situem entre os principais exportadores cárnicos, como por exemplo a Dinamarca, país que Espanha está prestes a ultrapassar em termos de exportações de carne de porco.

Antonio Tavares

Como vê o trabalho que o INTERPORC tem realizado para o fomento e desenvolvimento do sector em Espanha?
O papel de um interprofissional é fundamental para ter um sector forte. O INTERPORC está a fazer um trabalho extraordinário no desenvolvimento de toda a fileira em Espanha. É vital que os matadouros exportem a países terceiros, tal como disse antes. Para tal, o INTERPORC está a levar a cabo uma grande campanha promocional, para além de também fomentar o consumo interno. Fez um grande investimento nestes aspectos e os resultados estão à vista. Por isso, considero de extrema importância o seu trabalho.
Espanha é um país com indústrias cárnicas muito grandes, é certo, mas é vital contar com um polo de união para que toda a fileira caminhe no mesmo sentido. O INTERPORC tem conseguido reunir nos últimos anos todos os operadores da cadeia produtiva e com as acções que tem levado a cabo conseguiu coisas importantes que não se poderiam alcançar sem uma organização como um interprofissional. Não fosse assim, e cada matadouro ou indústria cárnica realizariam as suas próprias acções de promoção mas não redundaria no benefício de todos.
Para além disso, vai tendo um papel cada vez mais preponderante no desenvolvimento futuro do sector, já que, por exemplo, os planos de promoção que obtém ajudas por parte da Comissão Europeia serão geridos pelos interprofissionais na sua maioria. Neste momento, o INTERPORC tem em marcha uma candidatura de um plano de cerca de 4 milhões de euros para levar a cabo acções promocionais em países terceiros. Se for aprovada, o plano será apoiado em 80% por fundos comunitários. Sem um interprofissional não seria possível obter estas ajudas.

O Interprofissional também está a ser implementado em Portugal com a criação do FILPORC. Como está esse projecto?
Está parado. Não avança por resistência dos matadouros que não o querem. Penso que não entenderam a importância para eles de ter um interprofissional.

Pensa que o modelo do INTERPORC seria adaptável a outros países para fomentar a sua produção?
Perfeitamente. A produção portuguesa queria replicar em Portugal o modelo do INTERPORC: se algo funciona bem, o melhor é copiar do que inventar algo novo que não se sabe como vai funcionar. É o que almejamos mas a indústria cárnica leva já 15 anos a bloquear o processo em marcha do FILPORC. Assinou-se o contracto, formalizaram-se os estatutos, etc…, mas quando se informou o Ministério da Agricultura de Portugal os matadouros não quiseram seguir com o projecto.

Fonte:
Interporcnews










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